Seu lixo, meu luxo

“Essa mulher é uma guerreira”. Foi assim que o policial descreveu Fabiana, catadora de lixo dos Campos Elíseos.

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Conheci Fabiana tentando achar o caminho para a ocupação do número 300, onde Paulo e Edivânia se viravam com a informação de que seriam despejados em 2 dias, com 8 filhos e um cachorro. Reintegração de posse. Boato ou verdade? Não importa, o desespero havia se instalado da mesma forma.

Fabiana puxava a carroça quase vazia, não fosse o “trono” de colchonete onde viajava sentado seu filho de 5 anos: “Hoje não tem creche, dia de reunião. Tenho que trazer junto, atrapalha um pouco, mas não tenho opção”.

Sensibilizada com o caso do Paulo e da Edivânia, “gente boa eles, conheço faz muito tempo”, prometeu me levar lá. Foi assim que, de papo com ela e com Braian, fui andando pela Rio Branco, ajudando-a a catar as latinhas do chão e a puxar a carroça quando tínhamos que acelerar para não perder o farol aberto. Um chumbo para mim, mesmo vazia. “Você não viu nada! Ontem puxei 687 quilos.” A carroça havia ficado tão pesada que, para baixá-la, foram necessários mais dois homens.

Enquanto ela atende seu celular, o pequeno Braian vai me perguntando: “Ei, você tem filhos?”, “Ei, eles fazem o que você manda?”, “Ei, eles ficam muito bravos quando você manda eles fazerem alguma coisa que eles não querem fazer?”. Conforme suas perguntas indicavam, Braian não faz o que a mãe manda, não gosta, e fica “muito, muito bravo.”

Somos interrompidos pelo policial que a chama: precisava que Fabiana retirasse alguns restos de reforma da delegacia. “Ela está comigo, é minha amiga”, diz Fabiana, para que ele autorize minha entrada. Foi assim que tive minha primeira experiência como ajudante de catador de lixo. Sob suas orientações “do que vale mais e do que não vale nada”, separamos e recolhemos o lixo deles, o luxo dela. Está na carroça, seu lema.

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Enquanto carregávamos, contou do filho mais velho, desobediente, rebelde. “Finalmente há 3 semanas foi pego pela polícia. Graças a Deus. Fiquei feliz, rezava por isso. Quem sabe agora ele toma jeito, tá lá na Febem (Fundação Casa). A audiência é dia 11″.

Fabiana não se conforma de o filho ser assim, fez tudo por ele, tenta educar, tenta orientar, tenta mostrar um bom caminho. Dizem que é por causa do lugar onde vive (Favela do Moinho), mas ela não acredita, pois “se fosse assim, todos os meus filhos estariam no mau caminho, mas não estão. O de 11 é muito estudioso, ótimo aluno. Acho que é dele mesmo, da cabeça dele”.

Algumas latas de tinta depois, alguns alumínios de cortina e cabos elétricos depois, me conta: “Ele nasceu na cadeia. Ficou até os 11 meses no orfanato, quando finalmente pude ir buscá-lo”.

Quando ela não estava por perto, perguntei ao policial: “O senhor, que conhece o sistema da Fundação Casa melhor do que eu, acha que há alguma esperança de que ele saia desse caminho, se ficar internado?” Ele balançou a cabeça revelando, apenas com o olhar, a total falta de esperança.

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Para conhecer mais sobre a Fabiana:

http://youtu.be/mP9YwAXwNj4

http://www.vaievemdavida.com.br/noticia/com-recesso-na-creche-catadora-carrega-criancas-pelas-ruas-de-sp/

Em tempo: A pedido dela, o policial confirmou os 687 quilos que haviam sido retirados no dia anterior. “Viu, como não sou mentirosa?”

Luciana Damasio

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